A imagem como culto


Quando me converti me ensinaram a importância de ser sincero e de se evitar a aparência do mal. Então, conforme meu entendimento na época, cortei o cabelo que sempre tinha sido longo, mudei o estilo das roupas, vendi a motocicleta e comprei um carro, evitei achar coisas engraçadas muito engraçadas e, sobretudo, me abstive de qualquer conversa com mulheres que não acontecessem em lugares públicos, oficiais ou religiosos!
Comecei a pregar com muita graça. Então me informaram que meu único problema era ser tão jovem, apenas 19 anos. Tomei providencias: parei de lutar jiu jitsu, fiquei cada vez mais sisudo, passei a me comportar como um velho sem ambições, aceitava vestir tudo o que me dessem, mesmo que fosse contra todos os meus gostos e sentidos, e, também me dediquei ao jejum e à oração como um ermitão do deserto!



A televisão me tornou instantaneamente conhecido. Agora eu não podia mais ir a um banco ou qualquer outro lugar: todos queriam me passar adiante de todos nas filas e me conceder honrarias especiais. 
Eu só tinha 20 anos. Não gostei. O que pensariam de mim? Será que me veriam como uma “capitalizador de oportunidades”? Decidi não aceitar nunca tais favores. O problema é que isso parecia indelicado. 
Acabei não indo mais a lugares públicos a não ser para pregar!

O bom testemunho tinha de ser sempre mantido. Então engoli todas as minhas irritações, impaciências e cansaços—mesmo que fossem absolutamente justificados. Eu não tinha direitos!

Minha mente funcionava muito rápido. Tudo era fácil de entender. As pessoas pareciam ficar meio intimidadas na minha presença. Eu tinha apenas 23 anos. Por isto comecei a fazer de conta que não compreendia tudo que compreendia e não opinava jamais sobre nada que não fosse bíblico. Tinha que haver humildade. Os outros não poderiam me entender mal.

Fiquei conhecido em quase todos os lugares. Muitos se identificavam comigo. Gostavam que houvesse alguém como eu no time deles. Então, começaram a me dizer isto. Declaravam com tal veemência que eu passei a crer que era minha responsabilidade assumir aquele lugar!

Cheguei aos 27 anos como unanimidade nacional cristã. Os antagônicos me apreciavam apesar de odiarem-se entre si. Diziam que eu tinha que unir os não-uníveis. Lentamente minhas cruzadas e congressos passaram também a ter esse papel. Fazia de tudo para não criar crises. Deixei, entre outras coisas, o pastorado local a fim de que ninguém me visse como uma ameaça eclesiástica ou denominacional.

Os evangélicos não tinham voz. Espertalhões se vendiam como representantes de todo o grupo. Outros faziam maluquices e, quando pressionados pela opinião pública, diziam-se perseguidos por serem evangélicos. A comunidade se revoltava. Queriam uma representação. Acabei eleito por aclamação presidente da Associação Evangélica Brasileira. Eu era o único nome que conciliava na média os interesses de quase todos!

Agora eu já não podia mais falar em meu próprio nome. Representava milhões de pessoas. Havia a média evangélica ponderada a ser preservada!

Já fazia algum tempo que eu não era apenas uma figura religiosa. A mídia secular me descobrira e me acionara enormemente. Demandas começaram a surgir de todos os níveis. O papel de Ser Imagem era penoso. Doía a alma. Fazia-me ter saudades do tempo que eu era apenas eu!

Quanto mais carregado se está, mais cargas são postas sobre você!
Dessa forma associar-se à mim dava prestígio. Até companhias multinacionais desejavam capitalizar no vínculo de sua imagem à minha. A Fábrica de Esperança foi também fruto do recurso que esse capital de imagem produziu.

Tudo havia começado na intenção de evitar a aparência do mal. Agora eu tinha que viver a fim de expressar a aparência do bem!
Bem e mal! Aparências. Tudo mal. Aparência não gera nada além de aparência. É o que parece. Nem sempre é o que é!
Crises. Por que eu tinha que tentar dar cara a uma comunidade cuja cara pública lhe fazia jus?

Comecei a me sentir cometendo um estelionato. Estava falsificando para o “bem” uma imagem comunitária que não correspondia aos fatos!

Eu nunca fui insincero. Amava a Jesus e ao Evangelho. Nunca brinquei de nada. E nunca assumi nada do que assumi sem sincera vontade se servir. Mas não basta ter sincera vontade de servir. Só serve se servir como verdade libertadora e afirmadara do ser para você, na presença de Deus!

Aos 44 anos eu explodi!

Não queria mais viver nem para aquilo e nem daquele jeito. Era como perder a própria alma!

Infelicidades latentes se tornavam patentes!

Para mim, toda-via, não há-via!

Não havia nenhuma via!

Um salto no escuro!

Na mesma medida em que a imagem foi cultuada ela agora era execrada!

E tudo começou tão suavemente, tão santa e puramente, tão cheio de idéias!

Hoje, anos, décadas mais tarde, olho para trás sem medo. Vejo e não fujo do que enxergo. E, para mim, entre tantas doenças que percebo, essa é uma das mais graves no sentir dos cristãos: o culto a imagem!

A confissão de fé da “Igreja” é Conduta, Aparência e Performance. Jesus, no entanto, nos chamou para Caminho, Verdade e Vida!

Digo isto com muita reverência. Afinal, não fui, ainda sou!

A visibilização da fé dos cristão não se segura no que é, mas no que parece ser!

“Vós tendes que se parecer com o sal da terra”—é o modo existencial como compreendemos o Evangelho!

E enquanto tentamos parecer sem ser não nos tornamos abertos para admitir quem somos a fim de que sejamos curados!

Hoje, mais do que nunca e com toda a consciência, desejo de coração que ninguém pense de mim nada além do que em mim vê e de mim ouve!

Posso ser apenas humano. Um humano que conheceu a si mesmo na Graça de Jesus. Um humano que não precisa ser nada além de um ser inacabado, mas que não desiste de prosseguir para conquistar aquilo para o que foi conquistado por Cristo Jesus!
No homem cabe um pastor. Mas no pastor não cabe um homem inteiro. No Filho do Homem cabe o Salvador. Mas no Salvador não cabe o Filho do Homem!

O Salvador não foi mais que o Homem onde apareceu Seu lado divino de ser e Seu lado humano de aparecer!

O Verbo se fez carne!

A imagem tem que corresponder ao que é! do contrário, fica apenas a imagem oca e sem vida. Sem amor nada disso aproveitará!

Caio Fabio

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